Pois é,
depois de um bom tempo criando tecnologias e recursos
para melhorar as implementações de lan houses e cyber cafés em Linux
pude tirar boas conclusões sobre este
assunto, uma delas é que já passou da hora de abrir
esta realidade a público para que os usuários entendam
de uma vez por todas que nem tudo é um mar de rosas e que há
muitas coisas a serem analisadas de ângulos de vistas
diferentes antes de sair instalando Linux no estabelecimento e
esperando uma bênção divina para que tudo dê
certo.
Este artigo é dedicado para
sanar as dúvidas e mostrar como são as coisas de forma crua, depois não
diga que não te avisei!
- Análise (What's the Matrix?)
Não
existem tantas mentiras sobre o Linux como vemos com outros sistemas,
mas acaba-se criando mitos exatamente pela falta de compreensão
sobre o assunto, vi até mesmo supostos “especialistas”
dizer coisas que são mitos. Veja o caso quando alguns proprietáros de
lans me perguntam, a postura normalmente se divide em três tipos:
Linux é perfeito:
O cliente acha que com o Linux tudo será perfeito, e nada mais dará
problemas. Ele tem um servidor Linux que nunca deu problema e acredita
que nas estações será assim, mas se esquece que no servidor ninguém
coloca a mão e na estação ela será usada por clientes o dia inteiro.
Nenhum sistema operacional é perfeito, são muitas linhas, e afinal, é
feito por humanos que são passíveis de erros.
Eu tenho medo:
Este é um tipo de cliente que morre de medo de colocar o Linux e fica
desconfiado de tudo, não conhece o sistema e talvez tenha visto uma ou
duas vezes. Está recorrendo a migrar para o Linux pois não tem
condições de legalizar o seu estabelecimento, mas ao mesmo tempo quer
que tudo funcione como no Windows e não quer depender de suporte e de
ninguém. Se for analizar a fundo, ele quer um Windows de graça!
Sinceramente acho que este tipo de cliente deveria economizar uma grana
e comprar logo as licenças do Windows.
Sei que não é fácil, mas vamos lá!:
É o mais raro dos tipos de clientes. São os do tipo que conhecem o
Linux de forma intermediária e sabem que não é igual ao Windows. Deseja
receber uma implementação e está ciente de que deverá conversar com
seus clientes e se adaptar para as mudanças, não pode ou não quer
comprar as licenças do Windows mas não abre mão de estar legalizado, ou
não aguenta mais pegar vírus e ver seus micros travando. É do tipo que
irá lutar para aprender mais até deixar o lugar da forma que deseja,
onde geralmente tem altas chances de sucesso absoluto.
Uma coisa me chama a atenção na maioria das implementações, que é
quando o proprietário acha que o sistema deve ser da forma que ele
quer, o que é praticamente impossível de acontecer. Os proprietários
devem ter a consciência que todos deverão se adaptar a algumas
mudanças, faço o possível para que o Linux fique mais amigável para os
frequentadores da Lan House mas sempre costumo dizer: "Se quer que as
coisas fiquem idênticas como são agora, está procurando a solução
errada".
- Os Mitos
Pois
é, cansei de receber e-mails e ver comentários de
pessoas que conseguiram se envolver por mitos do software livre,
folclores estes que não englobam só o Linux e a sua
implementação em Lan Houses, vamos a alguns dos mais
importantes:
Mentira! Vejo pessoas
tentando usar Linux em Lan Houses achando que isso pode desviar a
atenção das autoridades com relação aos
jogos comerciais, que devem ser legalizados normalmente. O Linux por
sí só pode ter um maior número de programas
gratuitos que o Windows, mas cada software carrega a sua licença
que deve ser respeitada. Ao instalar o Counter Strike no Linux você
precisa pagar pela licença deste jogo.
Mais um mito bem
difundido. Não há sentido nessa afirmação
a partir do momento que o Linux usa portas de comunicação
e é um software como outro qualquer, feito por humanos e
passível de erros. Se o usuário usar um bom firewall e
sempre manter os programas atualizados e ficar atento a updates
críticos será bem difícil de ser invadido, caso
contrário ele poderá ficar bastante vulnerável, ainda mais com a
popularização do uso do Linux em nosso país.
É uma questão
de gosto e discernimento do usuário, os que compreendem o
Linux e estudam o seu funcionamento a fundo acabam não usando
mais o Windows ou querem fugir desta plataforma, agora aqueles que
não conhecem ou tiveram experiências decepcionantes com
o sistema fica difícil ver pontos positivos. Simplesmente
afirmar que o Linux é melhor que o Windows é deixar de
ver uma série de fatores óbvios, entre eles saber que o
Windows ainda é mais amigável para o usuário
leigo, motivo de ser tão difundido. Conhecer o Linux e passar
a usá-lo no dia a dia pode torná-lo mais fácil
sem dúvida, ainda mais se tiver uma cabeça aberta para
aprender novos conceitos. Mas alguém nega que ao começar a usar o Linux
já passou
30 minutos para fazer algo que no Windows bastaria alguns
cliques com o mouse? É uma questão de prática.
O Linux está
caminhando para abraçar os desktops de forma varagosa ainda,
portanto é muito cedo para afirmar com convicção
que o Linux está para substituir o Windows. Entre ambos os
sistemas há vantagens e desvantagens, então não
vá fazer certas afirmações sem mais nem menos ou
quando perceber descobrirá que está acreditando em
mitos também.
De forma alguma, mais
um mito. O Linux por ser uma novidade atual em uma Lan House pode sim
atrair curiosos, mas os usuários comuns podem não
gostar da novidade. Tenho muitos clientes que ainda passam
dificuldades para suprir certas necessidades até que elas
estejam perfeitamente implementadas em Linux. Para quebrar a barreira
da dificuldade de alguns clientes, é indispensável ter funcionários
preparados para orientar os clientes, como por exemplo no uso de
programas como o OpenOffice e aMSN, que apesar de parecidos, não são
iguais ao MS Office e MSN.
De onde é que
tiram essas idéias? Vai ver porque muitos donos de Lan Houses
e Cyber Cafés que usam Windows mal sabem usá-lo e tudo
ainda funciona (tirando os vírus e travamentos). No Linux a
realidade é bem diferente, considero hoje indispensável
ao menos que uma pessoa de confiança dentro do estabelecimento
esteja apto a aprender Linux ou que já conheça o
sistema de forma intermediária, caso contrário um ciclo vicioso estará
formado
onde os funcionários não serão capazes de sanar
as dúvidas dos clientes e os funcionários não
terão suas dúvidas sanadas também. Ficará
em um elo de dúvidas e dificuldades constantes até que
o estabelecimento instale o Windows novamente.
Depende de como e de
quem faz a implementação. Se não tiver a
disposição um suporte eficiente e uma equipe de
assessoria que possa suprir suas necessidades a economia da
implementação irá virar gastos com suporte de
preço abusivo e contratação de funcionários
qualificados em Linux que podem gerar mais despesas.
Se o seu
estabelecimento for freqüentado apenas por “nerds”
que só usam software livre realmente a migração
não será um problema. Sejamos realistas, os usuários
de Lan Houses e Cyber Cafés querem praticamente tudo na mão,
mesmo que fiquem apenas por meia hora exigem que nada falhe e que o
micro faça tudo sozinho, não é mesmo? E é
aí onde que fica o teste da facilidade da migração,
se a plataforma usada não for amigável e os
funcionários não estiverem íntimos com o sistema
vai ser difícil ajudar o seu cliente. Migrar para Linux
fazendo um serviço mal feito pode representar
uma perda muito significativa de clientes, tenha certeza disso.
Sou da seguinte idéia, não existe
distribuição Linux ruim, existem usuário ruim. Não vejo nada de errado
em usar distribuições como Slackware, Mandriva, Ubuntu, Kurumin ou seja
lá o que for em sua Lan House, desde que ela seja adaptada para receber
melhor o usuário leigo no sistema. O cliente não quer saber o que está
instalado, ele quer ver funcionar e atender as suas necessidades, e de
preferência com o mínimo de trabalho possível, é isso o que conta.
Deixei este mito por
último porque considero esta afirmação absurda e
um dos maiores motivos de grandes programadores e empresas não
portarem seus programas para Linux. Veja bem, nada te impede em fazer
um programa com licença comercial para Linux, e mais, se ele
for um software livre você pode ganhar com suporte ou com a
distribuição. Tem muita gente que pagaria para ter um
software gratuito embalado e com um bom manual, prova disso é
que existem muitas distribuições Linux pelo mundo que
vendem o empacotamento e suporte, não o software em si.
Obviamente pode-se ganhar também com cursos e implementações,
são inúmeras as possibilidades, tudo depende da
competência e criatividade de quem trabalha com estes tipos de
software.
Como
podem perceber os mitos atualmente difundidos são uma pedra no
sapato de quem implementa uma Lan House em Linux... Eu que o diga.
- As
Verdades (Welcome to the real world)
Uso
Linux há mais de 3 anos e posso dizer que já tive
crises imensas no início, ficando com vontade de jogar tudo
pro alto e voltar para o Windows, hoje com a experiência que
adquiri nem penso em uma possibilidade dessas.
Os
sistemas operacionais Linux e Windows se diferem demais, desde a sua
concepção inicial e estrutura interna, mas é
exatamente aí fazem valer o direito de escolha.
O
Linux não é uma caixa preta, para quem compreende o
sistema tudo pode ser feito, o funcionamento pode ser alterado de
inúmeras formas e o poder de personalização é
algo fora do comum, motivo este de haver tantas distribuições
no mundo. O que mais me impressiona é a imensa troca de
conhecimentos e inovações graças a licença
GPL, permitindo assim que um verdadeiro pingue pongue de informações
seja feita e a evolução do sistema aconteça
quase que de forma exponencial.
Já
o Windows é feito para ser uma caixa preta, precisando
esconder o hardware real do usuário leigo e entregá-los
a um mundo mais flexível onde os resultados finais sejam
rápidos para que qualquer um seja capaz de usá-lo, um
belo conceito para se aplicar no desktop, mas péssimo para se
personalizar e programar. Ninguém sabe o que se esconde por de
trás do Windows... Vou deixar esta afirmação no
ar.
Vamos
às verdades:
Verdade. A partir do
momento que a maioria dos softwares do sistema não estão
presos a licenças comerciais você tem uma abertura maior
para programar e desenvolver aplicações diversas sem
preocupações legais. A quantidade de linguagens
gratuitas e bibliotecas poderosas disponíveis é imensa.
Em partes isso é
verdade, pois ao se ter um estabelecimento já em funcionamento
com Windows seus freqüentadores assíduos já
estarão acostumados com isso, sendo que é neste ponto
que a migração deve ser feita de forma competente e
direcionada, criando o mínimo de problemas para o usuário
final (seu cliente).
Já ao iniciar um
estabelecimento em Linux, os freqüentadores padrão já
ficarão acostumados desde o início. Não se
esqueça, isso não se aplica para clientes esporádicos,
pois a grande maioria deles estarão acostumados a usar
Windows.
Mas isso não era
um mito? Veja bem, depende do ponto de vista. A economia é
gerada a partir do momento que a implementação é
feita da maneira correta e os funcionários são
instruídos para usar o sistema, agora se for “jogar”
o sistema no lugar e virar as costas... Então a afirmação vira mito
mesmo.
Com certeza! Deve
parecer um absurdo ver isso de uma pessoa como eu, mas volto a
repetir, se a implementação não for feita da
maneira correta com uma política de aprendizagem dos
funcionários e um suporte eficiente, prepare-se para perder
clientes.
No caso de Cyber Cafés
isso não afeta tando pois a maioria das aplicações
web podem ser executadas em Linux e uma suíte como o
OpenOffice pode fazer um bom serviço. Os maiores problemas
ficam com as Lan Houses, onde alguns jogos podem demorar mais tempo
para ter suporte ou nunca vir a funcionar na plataforma, fazendo com
que clientes que são jogadores hardcore venham a procurar os
concorrentes para se divertir com o seu jogo preferido.
Apesar de ser um dos
motivos de polêmica, eu com a minha experiência posso
afirmar este conceito. O Linux em um estabelecimento de uso público
oferece mais segurança aos seus clientes, os deixando isentos
de pragas digitais como vírus e cavalos de tróia. A
estabilidade é o que marca ainda mais presença, se um
jogo vier a dar problemas é só reiniciar o servidor X
com um Ctrl+Alt+Backspace e em segundos a plataforma está no
ar novamente sem reiniciar a estação como se nada
tivesse acontecido. O comportamento do Linux é diferente do
Windows pois desde a sua criação foi sempre focado a
segurança e estabilidade do sistema e a partir do Kernel 2.6 a
performance para jogos também ganhou força tornando ele uma
plataforma fantástica de entretenimento e acesso a internet.
Sim, para o Cyber Café
já deixei claro que é mais fácil, tudo pode ser
livre sem problemas. Agora para uma Lan House os jogos mais pedidos
são comerciais, então neste caso se o empreendedor quiser estes jogos
terá
mesmo que abrir o bolso para comprar as licenças de acordo com
os títulos. Concordo que de alguns anos pra cá foram criados novos
jogos gratuitos de peso para Linux, principalmente depois da liberação
do código fonte do Quake 3. Atualmente o Portal Criativa certifica mais
30 títulos de qualidade e totalmente gratuitos que são perfeitamente
aceitos em Lan Houses, o que permite sim criar uma Lan House totalmente
movida com softwares gratuitos, mas não necessariamento softwares
livres (código fonte aberto).
Verdade, mas depende do
suporte e conhecimento de quem estiver fazendo o serviço.
Todos sabemos que cada distribuição tem o seu foco. Nada te
impede de optar pelo Slackware, Mandriva, Kurumin, Ubuntu, Debian ou
qualquer outra distribuição que tenha mais afinidade.
Cada um na sua, desde que façam uma boa implementação.
A
verdade é esta, nua e crua, sem sensacionalismo e sem usar
medidas com um peso maior sobre a minha preferência, o Linux.
Sejamos honestos, a escolha final é sua, cabe somente a você
analisar já que agora certas informações estão
a sua disposição.
- Conclusão
O
Linux em Lan Houses é uma realidade sólida e é
exatamente por isso que criei este artigo, desejando que todos tenham
uma noção real de como são as coisas, caso
contrário eu mesmo como profissional continuarei tendo
problemas com expectativas fantasiosas de empreendedores que se
apegaram a mitos do software livre ou não estavam preparados para
receber o Linux em seus estabelecimentos.
Não
fiz este artigo pensando em autopromoção mas depois
percebi que isso aconteceria. Ao estudar os casos de meus clientes no
decorrer do tempo pude desenvolver uma estrutura cada vez mais sólida
para implementar Linux em Lan Houses e Cyber Cafés, e acredito que o
Linux só tem a amadurecer como plataforma desktop e irá surpreender o
mercado cada vez mais.
Enfim, escolha a sua pílula,
Neo...
Obs.: Este artigo foi publicado
primeiramente em 20/05/05 no site Guia do Hardware. Esta
versão foi atualizada em 09/04/06.